Li o último relatório da MIT Technology Review com a Cisco e um número salta: 98% das empresas sentem que a urgência com IA aumentou no último ano. 85% acreditam ter menos de 18 meses para implantar uma estratégia, ou sofrer consequências nos negócios. O número impressiona. Mas antes de repeti-lo como verdade absoluta, vale uma pausa crítica.
Primeiro: quem está respondendo essa pesquisa? Executivos C-level e diretores de TI — exatamente as pessoas cujo papel depende de demonstrar que estão atentos à próxima onda tecnológica. Dizer "não sinto urgência com IA" em 2025 seria suicídio político dentro de qualquer organização. Então 98% de urgência pode refletir menos a realidade operacional e mais o FOMO corporativo (Fear Of Missing Out — o medo de ficar para trás enquanto os concorrentes avançam).
Segundo: o relatório é patrocinado pela Cisco. A conclusão central — "sua infraestrutura não está pronta" — é conveniente para quem vende infraestrutura. Isso não invalida os dados, mas deveria calibrar como os lemos. Quando o barbeiro diz que você precisa cortar o cabelo, vale pedir uma segunda opinião.
Terceiro: os cinco pilares que o relatório apresenta (estratégia, infraestrutura, dados, governança e cultura) são sensatos, mas genéricos. Qualquer consultoria de transformação digital listaria os mesmos desde 2018 trocando "IA" por "cloud" ou "big data". A pergunta que o relatório não responde é: por que, se os pilares são conhecidos há anos, apenas 13% conseguiram executá-los? Talvez o problema não seja falta de framework — seja falta de honestidade organizacional sobre o próprio nível de maturidade.
Agora, o que vale a pena reter:
- O dado de que 50% das empresas já dedicam 10-30% do budget de TI para IA é significativo. O dinheiro está sendo alocado. Se o resultado não aparece, o gargalo é execução, não investimento.
- Agentes de IA — sistemas que tomam decisões autonomamente — estão no radar de 80% das empresas para os próximos 3 anos. Isso muda a natureza da conversa: não é mais sobre ferramentas que assistem humanos, é sobre sistemas que agem sozinhos. As implicações para governança e responsabilidade são enormes.
- Patrick Milligan, CISO da Ford, tem uma frase que merece reflexão: "Não me preocupo com a IA tomando meu emprego. Me preocupo com outra pessoa usando IA melhor que eu, tornando minha empresa irrelevante." É uma boa provocação — mas também é o tipo de frase que alimenta decisões apressadas. Nem toda urgência é produtiva.
Trazendo para a realidade brasileira: o cenário aqui é diferente. Maturidade digital mais desigual, orçamentos mais apertados, regulação incerta. Copiar o playbook de empresas americanas com budget ilimitado não funciona. A pergunta relevante para o Brasil não é "estamos nos 13%?", é "sabemos exatamente onde estamos e o que faz sentido para o nosso contexto?"
A janela de 18 meses que o relatório aponta pode existir — mas correr sem direção é pior do que esperar com clareza. Antes de perguntar "por que ainda não adotamos IA?", vale perguntar: "sabemos para quê queremos adotar?"
Você vê nas empresas ao seu redor urgência real com IA ou mais discurso do que ação?