Li a edição de março/abril da MIT Technology Review — capa "Crime of the Next Century". A reportagem principal abre com uma cena arrepiante: em agosto de 2025, um pesquisador identifica o PromptLock, primeiro ransomware que usa LLMs para escrever código de resgate em tempo real, sem intervenção humana. Um divisor de águas. Um dia depois, a reviravolta: o PromptLock era um projeto acadêmico da NYU. Nunca foi ataque real.
Essa pirueta de 24 horas diz muito sobre como falamos de crime com IA em 2026. Vale uma pausa crítica antes de abraçar a narrativa dominante.
Primeiro: o enquadramento "superhacker com IA" vende bem, mas não bate com os dados. A própria reportagem traz Marcus Hutchins — o pesquisador que parou o WannaCry em 2017 — dizendo que a ideia é "absurda". Gary McGraw, do Berryville Institute, analisou o ataque que a Anthropic disse ter bloqueado em novembro e foi taxativo: "Nada da parte maliciosa foi feita pela IA. Eram ferramentas pré-fabricadas que existem há 20 anos. Nada novo, criativo ou interessante."
Segundo: os números que impressionam são de volume, não de sofisticação. E essa diferença muda a resposta que precisa ser dada. A Microsoft bloqueou US$ 4 bilhões em golpes no ano fechado em abril de 2025. Pesquisadores de Columbia, Chicago e Barracuda concluíram que pelo menos metade do spam hoje vem de LLMs. Phishing direcionado saltou de 7,6% para 14% gerado por IA em apenas doze meses. A barreira de entrada para o cibercrime caiu. O teto não subiu.
Terceiro: nem toda fonte da reportagem é neutra. Anthropic, Google, Microsoft e fornecedores de segurança têm incentivos alinhados para inflar certas ameaças e minimizar outras. Quando a Anthropic anuncia uma "campanha sem precedentes bloqueada", também faz marketing da própria capacidade de detecção.
O que vale a pena reter:
- O caso Arup em 2024 — um funcionário da engenharia britânica transferiu US$ 25 milhões para criminosos depois de uma videochamada com deepfakes do CFO e de outros colegas. Não precisou de superhacker. Precisou de uma voz conhecida pedindo urgência.
- Criminosos estão migrando para modelos open-source justamente porque é mais fácil remover as proteções. A equipe da NYU confirmou: com modelos open-source, nem precisaram de técnicas de jailbreak para fazer o modelo gerar malware.
- A defesa também usa IA — e em escala que a ofensiva ainda não alcança. A Microsoft processa 100 trilhões de sinais por dia. Quem tem mais dados e mais computação leva vantagem — e nem sempre são os criminosos.
Trazendo para o Brasil: convivemos há anos com golpes em escala industrial via Pix, WhatsApp e call centers fraudulentos. A IA não criou o problema — acelerou um mercado que já era robusto. O deepfake de áudio do filho pedindo transferência de emergência é evolução direta do "golpe do sequestro" no zap familiar. A camada tecnológica mudou. A engenharia social continua igual.
A pergunta útil para um C-level brasileiro em 2026 não é "como me protejo do hacker de IA?". É "meu processo de aprovação de pagamento ainda assume que uma ligação do CFO é autêntica?". A resposta honesta vale mais do que qualquer ferramenta nova.
Na sua empresa, uma transferência de alto valor pode ser aprovada com base em uma videochamada? Ou existe um segundo fator obrigatório, independente do canal?